Terça-feira, 6 de Novembro de 2007

O Enselvajamento do Outro

 
 
O Professor Oliveira Pinto encarregou-me de integrar no respectivo contexto, a iconografia referente ao antropofagismo do negro africano, contida nas páginas 501 a 509 do livro Pilares da Diferença, da autoria da Professora Isabel Castro Henriques.
Reconheço que o tema é aliciante, tanto mais que antes de me iniciar em Estudos Africanos, a oportunidade nunca me tinha feito debruçar sobre o assunto e era bem capaz, se alguma vez as circunstâncias me obrigassem a analisar tal questão, de ser levado, numa apreciação sumária, a enveredar pela tese de que o africano era mesmo antropófago.
E quando digo antropófago, faço-o no estrito sentido de uma manducação de carne humana, tal como hoje o fazemos quando, independentemente de estarmos a satisfazer uma mera necessidade primária do nosso corpo, nos deliciamos com um saboroso naco de carne de vaca barrosã, ou com as partes mais suculentas de um belo presunto de porco «pata negra» da serra de Aracema.
A leitura e o sublinhar de partes importantes deste excerto do livro da Professora Castro Henriques – a sua parte III, intitulada Instrumentalização dos Africanos (séculos XVI a XX) – veio introduzir-me, de forma clara, a uma problemática que nunca me tinha passado pela cabeça e, por antecipação, fazer varrer da minha mente eventuais variações sobre um tema no mundo do qual, nem de perto nem de longe, sonhava que alguém me dissesse um dia para mergulhar.
O conceito do africano antropófago não surge do nada. Se quisermos saber como isso aconteceu, teremos de recuar aos tempos que se seguiram à descoberta da América em 1492 e aos relatos que foram chegando à Europa daquele novo mundo, pelas vozes de homens como as do italiano Américo Vespucci, do francês Jean de Léry ou do alemão Hans Staden de Hamburgo, que faziam eco da prática antropofágica dos índios caribenhos e da América do Sul.
Vespucci, por exemplo, refere como comem aqueles índios os seus prisioneiros de guerra, utilizando as seguintes palavras: “raríssimas vezes comem carne que não seja a de homem. Devoram-na tão cruel e sofregamente que excedem todas as feras e animais…”. Por outro lado, de Hans Staden, que esteve prisioneiro dos Tupinambá, chegam-nos descrições de tal forma pormenorizadas, como que obedecendo a códigos precisos, dos seus costumes de matarem e comerem os seus prisioneiros, que nos indiciam claramente inserir-se essa prática de consumo de carne humana em cerimónias marcadamente ritualizadas, não podendo, portanto, ser encaradas como fazendo parte de um sistema comum de alimentação, ou seja de uma prática corrente de antropofagia alimentar.
Nunca até esta altura – e esta altura reporta-se até quase ao final do século XVI, nos relatos dos portugueses, já experimentados marinheiros ou comerciantes na costa ocidental de África, se vêem referências à existência de práticas de antropofagia por aquelas paragens. E quando surge, (Relação do Reino do Congo e Terras Circunvizinhas, de 1591), apesar do relato ser do português Duarte Lopez, eles são escritos por um italiano, Filippo Pigafetta, que, certamente conhecedor dos relatos dos desbravadores americanos, resolve, por sua conta e risco, acrescentar um pouco de colorido à narrativa, introduzindo-lhe a aterradora figura do africano antropófago e da prática do comércio a retalho de carne humana, como se poderá verificar pela esclarecedora figura do açougue em plena selva congolesa, também ela de autor italiano.
Essa imagem, que consubstanciaria uma prática continuada de antropofagia para satisfação da necessidade alimentar corrente, entra, por outro lado, em linha de choque com a situação que se vivia em Lisboa, cidade que, por essa altura, acolhia já considerável população de escravos negros, a quem eram confiadas tarefas fundamentais para uma melhor hierarquização do trabalho da cidade.
A ser verdadeira essa imagem, romper-se-ia, de imediato, o elo de confiança que existia entre senhor e escravo e onde não era raro verem-se negras a desempenharem a delicada tarefa de serem amas de bebés e crianças, filhas das classes mais abastadas.
Mas o que faz então com que essa imagem do negro antropófago se propale e venha ao de cima cada vez com mais veemência?
A necessidade de explorar as novas terras descobertas, nomeadamente com a introdução de novas e mais rendíveis culturas – com a cana-de-açúcar à cabeça – que utilizando uma mão-de-obra intensiva, obriga os colonizadores à procura maciça de braços para efectuarem esse trabalho. Com um baixo índice demográfico nas respectivas metrópoles e com uma população constituída por índios aguerridos e insubmissos nas novas terras, viram na escravatura negra a forma perfeita para ultrapassar o problema.
Escravatura negra essa, que tendo subjacentes a captura, comercialização e a transferência de seres humanos, abrindo novas perspectivas a quem dela se aproveita, obriga à sua cada vez maior desvalorização. E como é que isso se faz? Exactamente através da desumanização da pessoa, em que a antropofagia aparece como a mais preponderante fórmula milagrosa para justificar a cruel brutalidade que rodeia todo o fenómeno esclavagista e tranquilizando, dessa forma, as consciências de quem vive à sua conta. Desde os comerciantes negreiros até à mais despudorada hierarquia da Igreja Romana.
E esta escabrosa argumentação, que serviu para justificar a escravatura e o seu florescente comércio, foi a mesma que viria a legitimar, desde a conferência de Berlim até quase aos nossos dias, a partilha de África pelas nações europeias e à consequente exploração colonial.
 
José Domingos Costa
 
_________________________________
Bibliografia:
Henriques, I. Castro (2004). Os Pilares da Diferença. Lisboa: Caleidoscópio

Nota: Este trabalho foi apresentado na aula de hoje, 6 de Novembro, e a iconografia que o texto refere, reporta-se a um «PowerPoint» que lhe serviu de suporte visual.
publicado por jdc às 19:26

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Terça-feira, 30 de Outubro de 2007

Workshop

 

Na próxima 2ª Feira, 5 de Novembro, decorrerá na Biblioteca Municipal José Saramago em Loures, o Workshop «Coerência das Políticas para promover o Desenvolvimento», organizado pela Câmara Municipal de Loures, Plataforma portuguesa das ONGD, Instituto Marquês de Valle Flor e pela Evert Vermeer Foundation, no âmbito do Projecto «Novas Dinâmicas de Solidariedade Norte-Sul: Promovendo um envolvimento activo da Sociedade Civil no diálogo Europa-África». Este projecto conta com o apoio financeiro da Comissão Europeia, do Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento e da Fundação Calouste Gulbenkian.
 
  Destinatários: 
 
ONG portuguesas assim como todos os interessados em trabalhar nas áreas da Cooperação para o Desenvolvimento (ex.: membros das plataformas das ONGD, estudantes, público em geral, decisores políticos e técnicos de órgãos estatais e de autarquias, associações de imigrantes).
 
  Objectivos da formação: 
 
> Participantes capazes de reconhecerem os efeitos das respectivas políticas nacionais nos países em desenvolvimento.
> Participantes capacitados para avaliarem a coerência das respectivas políticas nacionais.
> Participantes capazes de identificarem formas de promover a Coerência das Políticas em prol do Desenvolvimento.
> Participantes capacitados para identificarem possíveis acções conjuntas.
 
Clica aqui para aceder ao programa deste workshop
publicado por jdc às 20:50

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Quarta-feira, 10 de Outubro de 2007

O Islamismo em África

 

Penetração islâmica em África
Carla Folgôa *
Em: http://www.janusonline.pt/2003/2003_2_2_11.html#5
 
A religião islâmica assume grande importância não só no norte de África, mas em todo o continente africano. O encontro do Islão com o animismo africano resultou numa solução religiosa, que foi facilmente assimilada por parte da população, transformando-se numa forma alternativa de organização social.
 
Apesar de mais de 20% do total mundial de muçulmanos viverem na África subsariana, os conflitos vividos na região não se devem a causas religiosas, mas redicam na luta pelo controle de riquezas, na fraqueza dos Estados e na falta de meios financeiros para que estes desempenhem funções sociais.
 
A ideia de que mais de um terço da população africana partilha a fé islâmica não nos passa imediatamente pela cabeça quando se pensa em África.
 
Se nos habituámos a considerar os países do Norte de África como parte do mundo árabe, não reconhecemos tão facilmente a influência islâmica ao sul do Sara.
 
No entanto, o papel do Islão como força política, social e religiosa na África sub-sariana é também muito importante. Países como o Senegal, o Mali, a Somália têm maiorias muçulmanas. Metade dos 113 milhões de habitantes da Nigéria são muçulmanos. Países como o Gana, o Uganda, o Quénia e a Tanzânia têm grandes comunidades muçulmanas.
 
O Islão é uma religião fortemente implantada há séculos no continente e como tal tem desempenhado um papel preponderante na evolução de muitas nações africanas. Continua hoje a ser uma religião em expansão, apresentando-se como um sistema alternativo de organização social, política e económica para as comunidades islamizadas.
 
Como conseguiu o Islão alcançar tão importante posição nesta vasta área e que características adquiriu o Islão em África? Quais os países onde este processo tem sido mais problemático na actualidade?
 
A islamização de África tem sido um longo e complexo processo.
 
Em 640 d.c. registou-se a conquista do Norte de África, desde o Egipto até Marrocos. Ao contrário do resto do continente, no Norte de África desenrolaram-se dois processos distintos: islamização e arabização. Por islamização pretende-se referir o processo pelo qual os povos do Norte de África se converteram à religião islâmica e se tornaram muçulmanos. Por arabização refere-se o processo de aculturação através do qual estes povos absorveram numerosos aspectos da cultura árabe, nomeadamente a língua(1).
 
Ao mesmo tempo que decorria a conquista do Norte de África, o Islão atingiu a África Oriental, não através da conquista armada mas através do comércio no mar Vermelho e no oceano Índico.
 
Mais tarde regista-se uma expansão por vagas sucessivas do norte para o sul através do Sara, por via das migrações e do comércio de caravanas.
 
Esta expansão para sul foi variada na sua forma, tendo em conta a natureza da população muçulmana migrante e a sua atitude perante a religião. Cada grupo migrante tinha a sua forma de interagir com o povo acolhedor, o que teve efeitos nos métodos de islamização.
 
A adaptabilidade do Islão a diferentes ambientes e a sua interacção com a religião animista presente no continente africano vai permitir, por um lado, a sua fácil aceitação pelos africanos e, por outro, provocar mutações na religião islâmica de região para região. Como exemplo podem referir-se as celebrações islâmicas em partes da África Oriental, que incorporaram a dança e o tambor no seu seio. Estas duas características levam a que não se possa falar do Islão em África de uma forma global.

 
O fenómeno de expansão islâmica assume várias formas na actualidade: pode ser radical ou moderado, político ou apolítico, democrático ou autoritário, envolvendo desde esforços ao nível da educação nas escolas corânicas, a tentativas de chegada ao poder. Ao sul do continente africano, a grande mutação que se regista é a maior influência muçulmana dos países da península arábica. Estes países estão presentes em domínios tão variados como a formação de intelectuais, a construção de mesquitas e o financiamento de obras de caridade e fundações diversas.
  
 O Islão no quadro da reorganização do mundo pós-Guerra Fria 
 
Desde os atentados ocorridos a 11 de Setembro que a palavra Islão adquiriu outro significado para o mundo. Numerosos artigos nos EUA e na Europa, que até então ignoraram África, falam agora do facto de mais de 20% dos muçulmanos viverem na África sub-sariana, e de existirem mais muçulmanos em África do que no Médio Oriente.
 
Os conflitos religiosos no continente africano assumiram uma outra dimensão.
 
No entanto, é necessário ter em conta que o Islão em si não é a principal fonte destes conflitos. O problema em África é que os conflitos religiosos estão a mascarar problemas mais prementes como o controlo de riquezas, a fraqueza dos Estados e a falta de meios financeiros para desempenhar o seu papel na educação, saúde, etc., criando tensões que estão a ser definidas em termos islâmicos. Em países como a Nigéria, a Somália ou o Sudão onde os conflitos religiosos se encontram acesos, o Estado falhou no seu papel, e as instituições que conseguem manter algum funcionalismo são precisamente as religiosas (islâmicas e cristãs). São elas que mantêm a educação, apoios humanitários, assumindo mesmo, em alguns Estados, outras funções, como a construção de estradas.
 
É necessário ter em conta que o Islão em África é muitas vezes usado pelos líderes africanos como um instrumento político, uma forma de desviar as atenções dos conflitos locais, que nada tem a ver com o choque de civilizações, mas sim com a alocação de recursos e ainda que em muitas sociedades africanas o Islão convive pacificamente com as outras comunidades. É importante não confundir Islão com fundamentalismo islâmico.
 
Os políticos jogam a carta religiosa e étnica para conseguir apoios, dividir e conquistar.
 
O actual receio terrorista que assola o Ocidente, conjugado com a complexidade e diversidade de problemas que enfrenta o continente africano, representa um risco, pois pode ser usado pelos líderes africanos, não só para adiar reformas conducentes à liberalização política (tal como no passado, após o resultado eleitoral na Argélia), mas também para esmagar a oposição interna e externa, com a cumplicidade do Ocidente.
 
Durante o mandato de Clinton, o fundamentalismo islâmico foi uma das preocupações americanas no continente. A nova abordagem americana assentou numa nova geração de líderes independentes como Isaias Afwerki, da Eritreia, Meles Zenawi, da Etiópia, Yoweri Museveni, do Uganda e Paul Kagame, do Ruanda. Através destes países, os EUA procuraram deter a expansão do fundamentalismo islâmico, sobretudo do Sudão. Contudo, o renascimento africano proclamado por Clinton falhou. Não foi possível, num espaço de tempo limitado, resolver os problemas estruturais que África encerra.
 
Enquanto o continente africano continuar a ter Estados disfuncionais, desintegração social, rápido crescimento populacional, taxas de HIV elevadas, guerras, deslocados, fome, as tensões continuarão a existir. O fundamentalis-mo islâmico será apenas mais uma dessas tensões.  
 
Informação complementar
 
  Somália 
 
A fraqueza do Estado central tem consequências também na Somália. Para 90% das crianças em idade escolar, os únicos estabelecimentos de ensino existentes são as escolas corânicas. Após uma longa e sangrenta guerra civil, as únicas instituições que funcionam são os tribunais, escolas e mesquitas islâmicas. São estas instituições que conseguem trazer alguma ordem a zonas anteriormente anárquicas. A lei da sharia está em vigor desde 1993. 
 
    Sudão   
 
No Sudão, uma guerra civil sangrenta dura já há 18 anos entre o regime islâmico militar no Norte, e a oposição animista e cristã ao Sul. A descoberta de petróleo (ver mapa “Produção de petróleo no Sudão”) no Sul do Sudão em 1983 contribuiu para o reacender da guerra. Desde então, as diferenças religiosas e étnicas têm sido usadas como arma para controlar as áreas de produção. Cartum procura impor a Sharia a todo o país, ao contrário dos outros Estados africanos, onde apenas é imposta às comunidades muçulmanas.
 
    Nigéria   
 
O actual problema de tensões religiosas na Nigéria – com os esforços dos Estados do Norte para implementar a sharia(3) – tem fortes raízes históricas, étnicas, culturais, políticas e económicas. Em particular, é claro que o facto de a Nigéria ter falhado no uso dos vastos recursos petrolíferos (ver mapa intitulado “Principais áreas de conflito e número de IDP na Nigéria”), concentrados no Sul, para proporcionar melhores condições de vida e um sistema socioeconómico relativamente equitativo contribuiu para o exacerbar das divisões religiosas. Enquanto os problemas económicos e sociais continuarem na Nigéria, o risco de manipulação religiosa para fins políticos e o apelo à religião para encontrar respostas a problemas do mundo material continuarão.
 
__________
1. Semelhante processo decorre actualmente no Sudão.
2. Na Tanzânia, o presidente Mkapa tem sido acusado de usar como pretexto o fundamentalismo Islâmico do partido CUF para suprimir a oposição no país. No Uganda, os líderes da oposição estão receosos de que a lei recentemente aprovada de pena de morte para quem esteja envolvido ou apoie o terrorismo seja usada para neutralizar os opositores e críticos do regime. A Etiópia vê na actual antipatia por grupos terroristas no Corno de África uma forma de atrair o apoio dos EUA para exercer uma maior pressão sobre os seus inimigos baseados na Somália, especialmente a Al Itihaad.
3. Desde Janeiro de 2000, 12 Estados do Norte introduziram a Sharia.
  
* Carla Folgôa
Licenciada em Relações Internacionais pela UAL. Assessora da Direcção do Conselho Português para os Refugiados.
  post de Naya Alfredo
publicado por jdc às 16:43

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Domingo, 7 de Outubro de 2007

Era tudo Terra de Índio

Gravura: Antropofagia no Brasil em 1557, segundo Hans Staden

     Porque o «enselvajamento» do africano – no qual a antropofagia é, certamente, o elemento mais determinante na desvalorização do Outro – passa pelo continente Americano, onde a Europa foi beber, nomeadamente através dos relatos de Américo Vespucci, parte importante da argumentação em que viria a sustentar toda a imagem negativa, bárbara, cruel, que construiu em torno do homem de África, deixo aqui um artigo do jornalista brasileiro Carlos Pompe, sobre a antropofagia no Brasil em meados do século XVI, retirado do site http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=511 .

«Os nativos do Novo Continente chegaram a ser considerados “bons selvagens” mas, antes disso, foram endemoninhados para justificar as crueldades a que foram submetidos.

 

Agora os índios só tem o dia 19 de abril, canta Jorge Benjor numa de suas canções. Mas, antes da chegada dos europeus no Novo Continente, todo dia era dia de índio. Calcula-se que aqui viviam aproximadamente 100 milhões de pessoas. Só no que é hoje território brasileiro, esse número é estimado entre 2 milhões a 5 milhões de nativos. Os habitantes desta região estavam divididos em tribos, de acordo com o tronco lingüístico: tupi-guaranis (litoral), macro-jê ou tapuias (Planalto Central), aruaques e caraíbas (Amazônia).

 

Nelson Werneck Sodré, no seu “Formação Histórica do Brasil”, apurou que viviam sob o regime de comunidade primitiva, sem mercadorias ou excedente de produção. “O indígena não conhecia a atividade agrícola como o colonizador encarava. A terra lhe servia para caçar ou para plantar e colher o suficiente ao consumo da comunidade. Não estava em condições de aceitar a escravidão, de encarar o trabalho como o colonizador desejava, e como teve de impor”.

 

Os nativos tinham suas crenças e rituais. Acreditavam nas forças da natureza. Algumas tribos chegavam a enterrar o corpo dos mortos, com alguns objetos pessoais, em grandes vasos de cerâmica. Mas os colonizadores não estavam preocupados com essas idiossincrasias. Em 1576, Pero de Magalhães Gândavo, no seu “Tratado da Terra do Brasil”,  informa sobre a matança dos nativos: “Havia muitos destes índios pela Costa junto das Capitanias, tudo enfim estava cheio deles quando começaram os portugueses a povoar a terra; mas porque os mesmos índios se levantaram contra eles e faziam-lhes muitas traições, os governadores e capitães da terra destruíam-nos pouco a pouco e mataram muitos deles, outros fugiram para o sertão, e assim ficou a costa despovoada de gentio ao longo das Capitanias. Junto delas ficaram alguns índios destes nas aldeias que são de paz, e amigos dos portugueses”.

 

Para dar respaldo moral a essa matança, muitos textos da época satanizavam os nativos. O próprio Gândavo registra que “a língua deste gentio toda pela Costa é, uma: carece de três letras — não se acha nela F, nem L, nem R, cousa digna de espanto, porque assim não tem Fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem sem Justiça e desordenadamente.” Gândavo não era nenhum obtuso, mas um humanista lusitano, autor da 1ª ortografia portuguesa, residiu por duas vezes no Brasil e escreveu a primeira história destas terras, a “História da Província de Santa Cruz”.

 

A literatura desse período acusa, também, a prática de canibalismo no território. O padre João de Aspicuelta Navarro, em carta de 28 de março de 1550, diz: “Uma vez, por esses dias, foram à guerra muitos das terras de que falo, e muitos foram mortos pelos inimigos, donde, para se vingarem, outra vez lá voltaram e mortos muitos dos contrários, trouxeram grande abundância de carne humana, e, indo eu visitar uma aldeia, vi que daquela carne cozinhavam em um grande caldeirão, ao tempo que cheguei atiraram fora uma porção de braços, pés e cabeça de gente que era coisa medonha de ver-se, e seis ou sete mulheres, que com trabalho se teriam de pé, dançavam ao redor, experimentando o fogo, que pareciam demônios do inferno”.

 

“Trata-se de uma ‘testemunha’ ocular da cena de antropofagia. Contudo, como é fantasioso!”, polemiza Aylton Quintiliano, no seu “A guerra dos tamoios”, de 1965. “Basta saber-se que em 1550 o índio brasileiro não sabia cozinhar e tem-se destruída a fantasia do jesuíta. Em verdade, os índios só preparavam a carne na base do moquém. Isto é, tostavam a carne em grelhas feitas de madeira especial. O próprio Jean de Lery” (autor de “História de uma viagem à terra do Brasil”, de 1578) “mostra que os tamoios não sabiam tratar a carne de outra maneira”.

 

Quintiliano afirma que outros relatos da antropofagia apresentam “flagrantes contradições. E há deles que, ao mesmo tempo em que presenciaram cenas de antropofagia, dizem ter visto animais monstruosos no Brasil que tinham narinas nas costas e botavam fogo por elas”.

 

Atualmente, calcula-se que apenas 400 mil índios ocupam o território brasileiro, principalmente em reservas indígenas demarcadas sob proteção (ou deveriam estar...) do governo. São cerca de 200 etnias indígenas e 170 línguas. Porém, muitas delas não vivem mais como antes da chegada dos portugueses. O contato com o homem branco fez com que muitas tribos perdessem sua identidade cultural.

 

O cristianismo se impôs ao Brasil não apenas através das armas e da pregação. Valeu-se também da lei, como veremos.»

 

publicado por jdc às 13:00

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Sábado, 6 de Outubro de 2007

Negritude e Racismo

 

 

Ora aqui está um discurso, feito por Jonas Malheiro Savimbi, que seria bom dissecarmos. A proposta (informal) é do Professor Oliveira Pinto, a que eu não me escuso desde já. Restar-nos-á, apenas, determinar a oportunidade para fazê-lo.

 

"Quero falar também da negritude. Ainda há paixões que se desencadeiam contra o princípio que a UNITA adoptou de negritude. Na interpretação com óculos colonialistas, negro significa exclusivismo de negro anti-branco, na medida em que essa gente ainda não se descolonizou, quer no aspecto de Angola, quer do mundo.

O colonialista considerava que o termo negro era pejorativo. O próprio africano foi educado pelo seu colonialista no sentido de que ser negro era ser inferior. E hoje, na fase da ascensão dos países africanos à independência, ainda o termo negro soa a fantasma.

A UNITA sempre defendeu princípios anti-racistas. Mas isso não significa que acabem as raças. É como na questão das tribos. Na negritude, queremos que o racismo acabe, mas as raças continuem. Porque as raças encerram valores próprios e esses valores, entrando em contacto com valores de outras raças, se enriquecem.

No meu entender, a negritude procura valores culturais capazes de assegurar uma identidade própria dos povos africanos ou de origem africana, para que, entrando em contactos com outras culturas se não deixem aglutinar, não desapareçam, antes se enriqueçam com esses contactos, ao mesmo tempo que tenham a capacidade de transmitir os seus valores a essas novas culturas. Só têm medo da negritude aqueles que não chegaram ainda a descolonizar-se, que ainda pensam em termos de raças exclusivas, em termos de superioridade de raças.

No meu conceito de negritude, o mundo é habitado pelos homens. Sobretudo o mundo da cultura, é o mundo dos homens. E se a cultura é o instrumento fundamental da ideia e da ideologia, os desaculturados caem facilmente no fanatismo de assimilação de culturas ou de ideologias que lhes são alheias. Os povos sem cultura não podem estar capacitados para o diálogo, ao nível universal.

A primeira fase da entrada da cultura portuguesa em Angola, com o colonialismo, foi um contacto de força, um contacto alienatório e eliminatório, que não teve em consideração os valores que a cultura angolana, que é negro-afriçana, podia encerrar. Não se fez o reconhecimento desses valores, que existiam, que existem, porque resistiram à invasão de valores culturais melhor estruturados e expressos.

O nacionalismo angolano surgiu, porque a cultura angolana não tinha desaparecido. De outra forma, ele não poderia ter surgido. A cultura portuguesa trouxe valores para a cultura angolana e esta, por não ter desaparecido, transmitiu também à cultura portuguesa certos valores. A língua portuguesa é um valor cultural. Mas ela não regressou a Portugal com a pureza com que partiu para África. Regressou com termos tirados de outros, nomeadamente dos angolanos. Também o sangue faz parte dos nossos valores. O sangue angolano não ficou puro, depois de quinhentos anos de dominação e de contactos. Da mesma forma, o sangue português não regressou para Portugal como tinha partido. A própria concepção do mundo com que os colonos portugueses partiram da Europa para Angola, para a África, não é a mesma que eles levaram no seu regresso das colónias.

Afinal, a negritude não reivindica para si nenhum exclusivismo. Reivindica, sim, uma base cultural, que identifique povos africanos ou de origem africana, para lhes permitir, na pesquisa permanente dos seus valores e na conservação dos mesmos, libertar-se do complexo de inferioridade cultural e ensinar outros povos a abandonarem o preconceito de superioridade cultural que têm para que, no conceito universalista do mundo de culturas, a cultura negro-africana contribua com algo para o equilíbrio e o ajustamento da cultura universal.

As culturas do Ocidente voltaram das colónias enriquecidas com o contacto que tiveram com os povos africanos ou de origem africana. Os povos árabes estão impregnados dos valores da negritude, assim como a negritude está impregnada dos valores árabes. Como simples elemento de referência de que a linguagem falada é um veículo cultural, cito um caso. Em português diz-se "oxalá"; em árabe diz-se "inxala". O que significa que a cultura árabe-berbere, ao contacto com a latina na Europa — em Portugal e na Espanha, precisamente, pois foram os países que mais sofrerem a influência árabe — deixou vestígios.

Se uma cultura conhece e desenvolve os seus próprios valores perde o complexo de inferioridade. E no contacto com outras culturas, no mundo que se fez cada vez mais pequeno, devido ao desenvolvimento das vias de comunicação, esse contacto não provocará aglutinações eliminatórias, antes trará enriquecimentos."
publicado por jdc às 15:05

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Domingo, 30 de Setembro de 2007

2ª Aula - 27 de Setembro

Introdução à História de África
Docente: Mestre Alberto Oliveira Pinto
 
Nota Prévia: Como se vai constatar abaixo, os apontamentos desta aula têm grandes lacunas e deficiências, devidas, em boa medida, à inabilidade ou falta de prática de quem os tomou, ou não soube tomar. Todas as achegas serão importantes para aperfeiçoá-los.      
 
2ª Aula - 27 de Setembro de 2007 (Apontamentos)
 
 
            As questões que se levantam a quem se inicia na cadeira «Introdução à História de África» são, desde logo, estas duas:
 
            — O que é a História ?
            — O que é África ?
 
A História (Dic. Novo Aurélio, Sec. XXI, pag. 1055) é a narração metódica dos factos notáveis ocorridos na vida dos povos, em particular, e na vida de humanidade, em geral.
 
O importante na História é a Memória Colectiva.
 
África é um dos cinco Continentes. O Continente Negro, como muitas das vezes é depreciativamente referido, um Continente desprovido de cultura como Hegel o catalogou.
 
Quando começa a História?
 
A partir do momento da invenção da escrita, segundo uns;
A partir da sedentarização do homem, segundo a teoria marxista;
A partir do momento da fixação da memória através da tradição oral, segundo outros.
 
 
Processo de «ENSELVAJAMENTO» (rotulação) do Outro (o Africano)
 
1)      Animalização ou Zoomorfização
 
O homem africano é equiparado a um animal:
 
      — Feras;
      — Animais de carga;
      — Antropóides/Macacos
 
2)      Indolência
 
3)      Lubricidade (Perverso, Sensual, Elevada apetência sexual, Propensão para a dança, Polígamo)
 
4)      Despotismo
 
5)      Belicismo — «Tribalismo»
 
6)      Antropofagia (Canibalismo) — Ideia de Primitivismo
 
7)      Esclavagismo — As sociedades negras, elas próprias, como praticantes da escravatura.
 
 
Conceito de Tribo ou de Etnia — É um conceito pejorativo segundo o qual essas sociedades tribais ou étnicas não têm o desenvolvimento suficiente para se organizarem como verdadeiros Estados.
 
Refira-se que etnia em grego significa Povo ou Nação.
publicado por jdc às 15:40

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PROGRAMA

publicado por jdc às 15:10

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Sábado, 29 de Setembro de 2007

Cinco Blogues

     Foram criados cinco blogues destinados a apoiar outras tantas cadeiras de Estudos Africanos, aquelas que constituem o 1º Semestre do 1º Ano do curso. São eles:

 
     historiaafrica.blogs.sapo.pt – para a cadeira «Introdução à História de África»;
     portuguesescrito.blogs.sapo.pt – para «Produção de Português Escrito»;
     linguaafricanaum.blogs.sapo.pt – para «Língua Africana I»;
    africanomundo.blogs.sapo.pt – para «Africa No Mundo – Relações Internacionais»;
     geografiaafrica.blogs.sapo.pt – para «Geografia Física de África».
 
    O que se pretende?


    Que cada um dos blogues venha a incluir textos de apoio a cada uma das cadeiras, para além de outras informações cuja pertinência e interesse seja evidente para todos quantos frequentam o curso.
     Os blogues não se pretendem substituir a nada nem a ninguém e veiculam apenas o critério de quem selecciona e faz publicar o material. Caberá a cada um dos alunos (comigo incluído) ajuizar sobre o valor da informação que vai sendo prestada em cada um dos blogues e em cada uma das entradas registadas, tendo sempre em consideração que cada um de nós tem mais que fazer e não está para perder tempo com coisas que não aquecem nem arrefecem.
    
     Como participar ?
 
     Todos os alunos poderão (estava tentado a escrever «deverão», mas lembrei-me, assim de repente, que vivemos formalmente em democracia há já trinta e três anos, e não convirá abusar do espírito de sacrifício das pessoas), os alunos poderão, dizia eu, participar na construção do blogue das seguintes formas, ou de outras que agora não me ocorrem:
 
     1ª – Enviando textos (de académicos ou da sua própria lavra) de indiscutível interesse para qualquer das cinco cadeiras, para o e-mail josedomcosta@yahoo.com , identificando, logo à cabeça, qual a cadeira a que respeita e o nome dos seus autores;
 
     2ª – Indo à coluna lateral e clicando em Participar (Participe neste blogue). Poderão, dessa forma, colocar aí o texto pretendido directamente. Para isso é necessário terem previamente fornecido o e-mail ao administrador do blogue (não é chinesice minha, é imposição da aplicação informática).
 
      Sobre outras participações:
 
     É por demais evidente que a participação no blogue não nasce ou morre no universo dos alunos. Quem quiser contribuir poderá fazê-lo, com trabalhos, sugestões e críticas. Lamento, por outro lado, não poder aceitar dinheiro ou géneros, mas este blogue é financeiramente auto-suficiente, pois não pertence a nenhuma instituição de beneficência ou ONG, nem depende tão-pouco de fundos quer públicos quer privados para a sua subsistência.

     Finalmente, é importante subscreverem as actualizações (ao cimo da coluna lateral), para que sejam alertados por e-mail sobre as notícias mais recentes do blogue.
    
     Nada mais por agora.
publicado por jdc às 21:52

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