Terça-feira, 6 de Novembro de 2007

O Enselvajamento do Outro

 
 
O Professor Oliveira Pinto encarregou-me de integrar no respectivo contexto, a iconografia referente ao antropofagismo do negro africano, contida nas páginas 501 a 509 do livro Pilares da Diferença, da autoria da Professora Isabel Castro Henriques.
Reconheço que o tema é aliciante, tanto mais que antes de me iniciar em Estudos Africanos, a oportunidade nunca me tinha feito debruçar sobre o assunto e era bem capaz, se alguma vez as circunstâncias me obrigassem a analisar tal questão, de ser levado, numa apreciação sumária, a enveredar pela tese de que o africano era mesmo antropófago.
E quando digo antropófago, faço-o no estrito sentido de uma manducação de carne humana, tal como hoje o fazemos quando, independentemente de estarmos a satisfazer uma mera necessidade primária do nosso corpo, nos deliciamos com um saboroso naco de carne de vaca barrosã, ou com as partes mais suculentas de um belo presunto de porco «pata negra» da serra de Aracema.
A leitura e o sublinhar de partes importantes deste excerto do livro da Professora Castro Henriques – a sua parte III, intitulada Instrumentalização dos Africanos (séculos XVI a XX) – veio introduzir-me, de forma clara, a uma problemática que nunca me tinha passado pela cabeça e, por antecipação, fazer varrer da minha mente eventuais variações sobre um tema no mundo do qual, nem de perto nem de longe, sonhava que alguém me dissesse um dia para mergulhar.
O conceito do africano antropófago não surge do nada. Se quisermos saber como isso aconteceu, teremos de recuar aos tempos que se seguiram à descoberta da América em 1492 e aos relatos que foram chegando à Europa daquele novo mundo, pelas vozes de homens como as do italiano Américo Vespucci, do francês Jean de Léry ou do alemão Hans Staden de Hamburgo, que faziam eco da prática antropofágica dos índios caribenhos e da América do Sul.
Vespucci, por exemplo, refere como comem aqueles índios os seus prisioneiros de guerra, utilizando as seguintes palavras: “raríssimas vezes comem carne que não seja a de homem. Devoram-na tão cruel e sofregamente que excedem todas as feras e animais…”. Por outro lado, de Hans Staden, que esteve prisioneiro dos Tupinambá, chegam-nos descrições de tal forma pormenorizadas, como que obedecendo a códigos precisos, dos seus costumes de matarem e comerem os seus prisioneiros, que nos indiciam claramente inserir-se essa prática de consumo de carne humana em cerimónias marcadamente ritualizadas, não podendo, portanto, ser encaradas como fazendo parte de um sistema comum de alimentação, ou seja de uma prática corrente de antropofagia alimentar.
Nunca até esta altura – e esta altura reporta-se até quase ao final do século XVI, nos relatos dos portugueses, já experimentados marinheiros ou comerciantes na costa ocidental de África, se vêem referências à existência de práticas de antropofagia por aquelas paragens. E quando surge, (Relação do Reino do Congo e Terras Circunvizinhas, de 1591), apesar do relato ser do português Duarte Lopez, eles são escritos por um italiano, Filippo Pigafetta, que, certamente conhecedor dos relatos dos desbravadores americanos, resolve, por sua conta e risco, acrescentar um pouco de colorido à narrativa, introduzindo-lhe a aterradora figura do africano antropófago e da prática do comércio a retalho de carne humana, como se poderá verificar pela esclarecedora figura do açougue em plena selva congolesa, também ela de autor italiano.
Essa imagem, que consubstanciaria uma prática continuada de antropofagia para satisfação da necessidade alimentar corrente, entra, por outro lado, em linha de choque com a situação que se vivia em Lisboa, cidade que, por essa altura, acolhia já considerável população de escravos negros, a quem eram confiadas tarefas fundamentais para uma melhor hierarquização do trabalho da cidade.
A ser verdadeira essa imagem, romper-se-ia, de imediato, o elo de confiança que existia entre senhor e escravo e onde não era raro verem-se negras a desempenharem a delicada tarefa de serem amas de bebés e crianças, filhas das classes mais abastadas.
Mas o que faz então com que essa imagem do negro antropófago se propale e venha ao de cima cada vez com mais veemência?
A necessidade de explorar as novas terras descobertas, nomeadamente com a introdução de novas e mais rendíveis culturas – com a cana-de-açúcar à cabeça – que utilizando uma mão-de-obra intensiva, obriga os colonizadores à procura maciça de braços para efectuarem esse trabalho. Com um baixo índice demográfico nas respectivas metrópoles e com uma população constituída por índios aguerridos e insubmissos nas novas terras, viram na escravatura negra a forma perfeita para ultrapassar o problema.
Escravatura negra essa, que tendo subjacentes a captura, comercialização e a transferência de seres humanos, abrindo novas perspectivas a quem dela se aproveita, obriga à sua cada vez maior desvalorização. E como é que isso se faz? Exactamente através da desumanização da pessoa, em que a antropofagia aparece como a mais preponderante fórmula milagrosa para justificar a cruel brutalidade que rodeia todo o fenómeno esclavagista e tranquilizando, dessa forma, as consciências de quem vive à sua conta. Desde os comerciantes negreiros até à mais despudorada hierarquia da Igreja Romana.
E esta escabrosa argumentação, que serviu para justificar a escravatura e o seu florescente comércio, foi a mesma que viria a legitimar, desde a conferência de Berlim até quase aos nossos dias, a partilha de África pelas nações europeias e à consequente exploração colonial.
 
José Domingos Costa
 
_________________________________
Bibliografia:
Henriques, I. Castro (2004). Os Pilares da Diferença. Lisboa: Caleidoscópio

Nota: Este trabalho foi apresentado na aula de hoje, 6 de Novembro, e a iconografia que o texto refere, reporta-se a um «PowerPoint» que lhe serviu de suporte visual.
publicado por jdc às 19:26

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