Domingo, 7 de Outubro de 2007

Era tudo Terra de Índio

Gravura: Antropofagia no Brasil em 1557, segundo Hans Staden

     Porque o «enselvajamento» do africano – no qual a antropofagia é, certamente, o elemento mais determinante na desvalorização do Outro – passa pelo continente Americano, onde a Europa foi beber, nomeadamente através dos relatos de Américo Vespucci, parte importante da argumentação em que viria a sustentar toda a imagem negativa, bárbara, cruel, que construiu em torno do homem de África, deixo aqui um artigo do jornalista brasileiro Carlos Pompe, sobre a antropofagia no Brasil em meados do século XVI, retirado do site http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=511 .

«Os nativos do Novo Continente chegaram a ser considerados “bons selvagens” mas, antes disso, foram endemoninhados para justificar as crueldades a que foram submetidos.

 

Agora os índios só tem o dia 19 de abril, canta Jorge Benjor numa de suas canções. Mas, antes da chegada dos europeus no Novo Continente, todo dia era dia de índio. Calcula-se que aqui viviam aproximadamente 100 milhões de pessoas. Só no que é hoje território brasileiro, esse número é estimado entre 2 milhões a 5 milhões de nativos. Os habitantes desta região estavam divididos em tribos, de acordo com o tronco lingüístico: tupi-guaranis (litoral), macro-jê ou tapuias (Planalto Central), aruaques e caraíbas (Amazônia).

 

Nelson Werneck Sodré, no seu “Formação Histórica do Brasil”, apurou que viviam sob o regime de comunidade primitiva, sem mercadorias ou excedente de produção. “O indígena não conhecia a atividade agrícola como o colonizador encarava. A terra lhe servia para caçar ou para plantar e colher o suficiente ao consumo da comunidade. Não estava em condições de aceitar a escravidão, de encarar o trabalho como o colonizador desejava, e como teve de impor”.

 

Os nativos tinham suas crenças e rituais. Acreditavam nas forças da natureza. Algumas tribos chegavam a enterrar o corpo dos mortos, com alguns objetos pessoais, em grandes vasos de cerâmica. Mas os colonizadores não estavam preocupados com essas idiossincrasias. Em 1576, Pero de Magalhães Gândavo, no seu “Tratado da Terra do Brasil”,  informa sobre a matança dos nativos: “Havia muitos destes índios pela Costa junto das Capitanias, tudo enfim estava cheio deles quando começaram os portugueses a povoar a terra; mas porque os mesmos índios se levantaram contra eles e faziam-lhes muitas traições, os governadores e capitães da terra destruíam-nos pouco a pouco e mataram muitos deles, outros fugiram para o sertão, e assim ficou a costa despovoada de gentio ao longo das Capitanias. Junto delas ficaram alguns índios destes nas aldeias que são de paz, e amigos dos portugueses”.

 

Para dar respaldo moral a essa matança, muitos textos da época satanizavam os nativos. O próprio Gândavo registra que “a língua deste gentio toda pela Costa é, uma: carece de três letras — não se acha nela F, nem L, nem R, cousa digna de espanto, porque assim não tem Fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem sem Justiça e desordenadamente.” Gândavo não era nenhum obtuso, mas um humanista lusitano, autor da 1ª ortografia portuguesa, residiu por duas vezes no Brasil e escreveu a primeira história destas terras, a “História da Província de Santa Cruz”.

 

A literatura desse período acusa, também, a prática de canibalismo no território. O padre João de Aspicuelta Navarro, em carta de 28 de março de 1550, diz: “Uma vez, por esses dias, foram à guerra muitos das terras de que falo, e muitos foram mortos pelos inimigos, donde, para se vingarem, outra vez lá voltaram e mortos muitos dos contrários, trouxeram grande abundância de carne humana, e, indo eu visitar uma aldeia, vi que daquela carne cozinhavam em um grande caldeirão, ao tempo que cheguei atiraram fora uma porção de braços, pés e cabeça de gente que era coisa medonha de ver-se, e seis ou sete mulheres, que com trabalho se teriam de pé, dançavam ao redor, experimentando o fogo, que pareciam demônios do inferno”.

 

“Trata-se de uma ‘testemunha’ ocular da cena de antropofagia. Contudo, como é fantasioso!”, polemiza Aylton Quintiliano, no seu “A guerra dos tamoios”, de 1965. “Basta saber-se que em 1550 o índio brasileiro não sabia cozinhar e tem-se destruída a fantasia do jesuíta. Em verdade, os índios só preparavam a carne na base do moquém. Isto é, tostavam a carne em grelhas feitas de madeira especial. O próprio Jean de Lery” (autor de “História de uma viagem à terra do Brasil”, de 1578) “mostra que os tamoios não sabiam tratar a carne de outra maneira”.

 

Quintiliano afirma que outros relatos da antropofagia apresentam “flagrantes contradições. E há deles que, ao mesmo tempo em que presenciaram cenas de antropofagia, dizem ter visto animais monstruosos no Brasil que tinham narinas nas costas e botavam fogo por elas”.

 

Atualmente, calcula-se que apenas 400 mil índios ocupam o território brasileiro, principalmente em reservas indígenas demarcadas sob proteção (ou deveriam estar...) do governo. São cerca de 200 etnias indígenas e 170 línguas. Porém, muitas delas não vivem mais como antes da chegada dos portugueses. O contato com o homem branco fez com que muitas tribos perdessem sua identidade cultural.

 

O cristianismo se impôs ao Brasil não apenas através das armas e da pregação. Valeu-se também da lei, como veremos.»

 

publicado por jdc às 13:00

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